Quem passeia pela Rota do Enxaimel percebe que algumas das casas antigas têm as laterais com a madeira e tijolos aparentes, típicas do enxaimel, mas a fachada e varanda rebocadas com massa, ocultando o enxaimel. Outras casas enxaimel são até mesmo completamente rebocadas, como se fossem construídas em alvenaria. Qual o motivo disso?

Enxaimel escondido: assunto controverso

Há uma versão de que os imigrantes fariam isso para disfarçar sua origem alemã, que era vista com maus olhos pelo governo brasileiro na época da Segunda Guerra. Ora, isso não faria sentido, pois até a década de 1950 praticamente não havia pessoas de outra etnia na região que não fossem alemães. Quando a escritora Rachel de Queiroz visitou Pomerode, em 1949, ela precisou de um intérprete de alemão-português para interagir com os moradores no centro da cidade, afinal ninguém falava bem o português! Por isso, é improvável imaginar que uma fachada rebocada convenceria alguém de que pessoas de outra ascendência viviam na casa.

Na verdade, os imigrantes estavam apenas reproduzindo o costume que existia à época na Alemanha de rebocar a fachada das casas em enxaimel — ou mesmo de rebocá-las por completo.

Rebocar o enxaimel chegou a ser obrigatório na Alemanha

A urbanista Angelina Wittman, tratando do assunto em seu livro “Fachwerk”, relata que em diversas cidades alemãs nos séculos XVIII e XIX era obrigatório rebocar a fachada de novas construções em enxaimel.

Hans Luxner, em seu livro “Fachwerk-Häuser”, menciona que na cidade de Einbeck, após um incêndio em 1826, uma lei obrigou a rebocar a fachada de todas as casas enxaimel, para limitar a propagação de incêndios. Vale lembrar que nas cidades alemãs as casas ficavam encostadas umas às outras, fazendo com que um incêndio se alastrasse rapidamente pelas peças em madeira, com proporções catastróficas.

Além disso, explica Luxner, houve no sec. XIX forte influência do modismo estético do Barroco e do Classicismo, que não valorizavam a construção em enxaimel, de aspecto mais medieval. Por isso, muitas casas eram recobertas com reboco, aparentando serem de alvenaria, técnica considerada mais nobre e moderna. Dentre outros exemplos, o autor relata que na cidade de Detmold, por ocasião da visita do imperador alemão em 1875, o príncipe de Lippe, governante local, ordenou que todas as casas em enxaimel da avenida principal fossem rebocadas, para que aos olhos do Kaiser a cidade não parecesse um vilarejo.

A tradição oral de moradores locais mais antigos, como a Sra. Rovena Siewert, confirma que o objetivo da aplicação do reboco era dar à casa uma aparência mais bonita ou mais moderna.

A construção em enxaimel desvalorizada

Durante o Estado Novo (Getúlio Vargas, 1937 a 1945), houve uma nacionalização forçada, e traços identitários de culturas estrangeiras, como a construção em enxaimel, tornaram-se mal vistos. Praticamente deixou-se de se construir em enxaimel na região, e muitas edificações foram derrubadas ou deixadas sem manutenção.

Século XXI: revalorização do Enxaimel

Para muitos dos pioneiros de Pomerode, ter uma casa com a fachada rebocada deve ter sido um motivo de orgulho. Talvez se surpreendessem se soubessem que, um século depois, as pessoas se encantariam justamente com a técnica da construção em enxaimel.

Passeie pela Rota do Enxaimel e observe as casas indicadas no mapa, e perceba como muitas das casas antigas que parecem ser de alvenaria são, na realidade, construções em enxaimel.

Visita a casa em enxaimel: Casa Siewert
Estufa construída em enxaimel: Tour Nugali Chocolates
Hospedagem em casa enxaimel: Pousada Casa Wachholz

Saiba mais sobre esse assunto em vídeo da arquiteta Angelina Wittmann